A divulgação destas tradições, que certamente farão reviver a muita gente episódios inesquecíveis vividos por várias gerações, assenta num excelente trabalho de recolha elaborado pelo nosso conterrâneo Joaquim Proença Mateus.
Desse trabalho denominado "Os Usos e Costumes da Minha Aldeia", baseado essencialmente na sua vivência enquanto jovem, retirámos os exertos mais importantes e que se relacionam de forma mais genérica com as tradições e costumes vividos em Lavacolhos.
Ao Sr. Joaquim Proença Mateus, um grande Bem-Haja pela cedência deste trabalho.
As Janeiras
Nesta quadra Natalícia costumava-se cantar as Janeiras. Juntavam-se rapazes, raparigas e gente crescida; davam as voltas às casas da povoação e cantavam junto às portas, recebendo dinheiro, chouriças, filhós ou outros presentes. As quadras mais usadas já vêm dos nossos avós:
Viva lá senhora dona Maria José
Raminho de amendoeira.
Ainda anda neste mundo
E já no Céu tem a cadeira.
Levante-se lá minha senhora
Desse banquinho de prata.
Venha-nos dar as janeiras
Que está um frio que mata.
Viva lá minha senhora,
Raminho de salsa crua,
por baixo da sua cama
nasce o sol e põe-se a lua.
De quem é aquele casaco
Que além está dependurado.
É do menino Carlinhos
Que é lindo como um cravo.
Estas quadras eram cantadas por uma só pessoa e havia um refrão que se cantava pelos restantes acompanhantes:
Ó anjos do céu
Que também cantais!
Cantai ó Menino
Bendito sejais!...
Depois de se cantar e não vinha ninguém dar nada, em troco, a malta berrava:
Trinca martelos e torna a trincar!
Este barbas de chibo não tem nada para dar!...
O Santo Amaro
Dia 15 de Janeiro, festa do nosso Padroeiro, SANTO AMARO.
É a festa do povo, o nosso feriado Santificado.
Estrelejam foguetes.
Há missa e procissão com os Estandartes e os Santos percorrendo as ruas da freguesia. Á tarde é o cortejo.
Ouve-se o toque dos Bombos e os seus cânticos habituais.
As pessoas abrem as portas das suas adegas e das pipas de madeira escorre o saboroso vinho para os copos, que passam de mão em mão, aquecendo as gargantas frias e alegrando o coração!...
Não faltam filhos, chouriças e azeitonas com fatias de broa ou centeio. Há alegria por toda a aldeia e ouvem-se cantares entoados em coro:
Ai viv’ó Nosso... Ai viv’ó Nosso...
Ai viv’ó Nosso Santo Amaro!...
E lá ao cimo… E lá ao cimo…
E lá nas mãos tem um Rosário!…
Que está defronte da Santa Rita!
E pr’ós casados a boa Paz.
E pr’ós solteiros uma fita!...
Ao aproximar-se um novo grupo começam a cantar em tom de brincadeira:
Ai viv’ó Nosso... Ai viv’ó Nosso...
Ai viv’ó Nosso que é melhor qu’ó Vosso!
Respondem de seguida os primeiros:
Ai viv’ó Meu... Ai viv’ó Meu...
Ai viv’ó Meu que é melhor qu’ó Teu!...
Era nesta boa disposição que a festa continuava até de madrugada, onde alguns procurando um canto lá deixavam um chibo e outros plantavam figueiras.
Resta acrescentar que, pela festa do Santo Amaro, ao almoço era costume comer arroz de tordos apanhados em abuízes, ou o bucho do porco feito da bexiga, sendo o seu conteúdo arroz e carne tal como as morcelas.
O Entrudo
E agora temos o Entrudo!... Também se chama Carnaval!...
Pelo Carnaval ninguém lava a mal!...
É dia de folia! Os mais folgazões vestem-se de Entrudos e percorrem as ruas da aldeia, de cara tapada com máscaras ou panos de renda, evitando assim de serem reconhecidos. As vestes geralmente eram velhas e de sexo diferente e os garotos giravam em volta deles em grande algazarra, tentando conhecer algum. Era um dia com muita animação.
Partir Cântaros
Os rapazes e as raparigas, munidos de cântaros velhos, se viam alguma porta aberta, aí vai ele!... Depois dava-se às de “Vilas Diogo”, porque havia quem não gostasse.
Chorar o entrudo
Por volta da meia-noite chorava-se o Entrudo: Com um funil grande para a voz não ser conhecida aproximavam-se das casas que tinham sido previamente escolhidas. Estas choradelas eram referentes a episódios passados com pessoas durante o ano e que tinham causado falatório. Os atingidos, por vezes, reagiam mal e todo o cuidado era pouco.
Quaresma
Entrou-se na Quaresma, tempo de meditação. E de alguma diversão!...
É tempo de encomendar as almas que, por volta da meia-noite, era feito no campanário da igreja.
Fazem-se as Ladainhas dos Passos e dos Santos.
Era preciso comprar as bulas ao padre para se poder comer carne, desde Quarta-feira de Cinzas até Domingo de Páscoa, excepto nas Sextas-feiras.
Serrar as Velhas
Quando a Quaresma chegava a meio era costume o serrar das velhas, e quem as pagava eram as pessoas mais idosas com mais de 75 anos, que os rapazes achavam por tradição pregar uma partida. Muniam-se de um cortiço velho, uma tábua dentada servindo de serrote, várias tábuas e um saco de serradura. Tudo muito silencioso e chegados às portas pretendidas batia-se à porta e chamava-se a pessoa pelo nome até esta responder. Começava então um a falar com voz distorcida:
“- Srª. Maria, estamos aqui para a serrar!...”
O serrote começava a trabalhar, outro ia deitando tábuas para o chão enquanto outro gemia, fazendo queixinhas, imitando que estava a ser serrado. O que falava ia dizendo:
“- Ai que belas tábuas para fazer caixões! E para fazer arcas?”
“- Também dão para mesas e para andaimes!” – Isto quando as visadas eram gordas. Quando eram magras diziam que as tábuas eram para fazer ripa, caixas da sardinha, caixilhos, colheres, e até para palitos, conforme a fisionomia da pessoa.
Deitava-se serradura junto à porta e na rua. Às vezes ouvia-se umas bocas vindas de casa:
“- Seus malandros, malvados… seus malcriados que não têm mais que fazer!...”
E lá se seguia para outra casa com a mesma lenga-lenga. Certo é, ao outro dia pela manhã já estava tudo varrido!...
Penitentes
Faziam-se os Penitentes nas três últimas Quintas-feiras da Quaresma à meia-noite, mas antes havia sempre a ladainha. Na última Quinta-feira era a mais vistosa. Iam todos embrulhados num lençol com uma coroa de vide ou de roseira e descalços. Na frente ia uma cruz com uma toalha, género de laço, e mais dois penitentes com uma candeia de azeite acesa. A seguir vinha a bandeira grande com Cristo, a bandeja com um martelo, uma turquês e pregos. Dos lados desta, mais dois com umas escadas. A seguir, o Nosso Senhor pequeno, que ia sendo desenrolado quando se regrava e depois novamente enrolado; um com uma correia, batia três vezes numa porta quando se regrava; um com uma relha presa por uma corda a um pé, que se ia prendendo onde havia mais mato, sendo imediatamente levantada por um guarda. Estes eram uns dez ou mais, com uns paus na mão e roupa adequada para não serem conhecidos. Vinham os três que regravam e em voz disfarçada iam dizendo:
“- Jesus pregado numa cruz, Tende misericórdia de mim!”
Os restantes penitentes respondiam:
“- E de nós!...”
E lá iam continuando:
“- Jesus preso como um ladrão, Tende misericórdia de mim!”
Ouviam-se novamente as vozes:
“- E de nós!...”
Era assim todo o percurso. À retaguarda ainda vinha o dos passos, com um pau com cerca de metro e meio, dando passadas apoiado neste, e mais parecia que ia de joelhos.
A primeira vez que vi tinha os meus seis anitos, mas nem sequer deixavam abrir as janelas… e ai daquele que vissem numa varanda! Os guardas eram muito maus, mais parecidos com os carrascos que acompanhavam Jesus até ao Calvário.
Durante a Semana Santa não se podiam tocar os sinos e era posta uma pedra a travar o martelo, evitando que tocasse no sino e dar as horas. Para avisarem o povo que havia alguma cerimónia na igreja, tocavam umas “batolecas”, percorrendo todas as ruas.
No Sábado às dez horas repicavam os sinos anunciando “Aleluia” e mantinham o toque durante todo o dia, e por vezes toda a noite.
Tocar os Chocalhos
Por volta da meia-noite juntavam-se os pastores com os chocalhos e campainhas tirados das cabras e percorriam a povoação. Os que não se tinham confessado na Quaresma eram os visados. Havia um que batia à porta e chamava pelo nome até a pessoa responder, perguntando de seguida:
“- O senhor não se confessou, pois não?”
Respondiam os restantes, que por vezes eram mais de trinta:
“- Não, não, não…”
…E tocavam todos os chocalhos, fazendo uma barulheira infernal!...
Desfolhadas e Debulhas
Que divertido era este tempo!...
À noite havia as desfolhadas que consistiam em tirar as canuchas ao milho. Juntavam-se as famílias e amigos, rapazes e raparigas, diziam-se uns piropos, cantavam-se umas cantigas para animar, e de seguida, baile. Recordo-me de algumas cantigas:
As desfolhadas da aldeia
São lindas de bonita cor.
Até à luz da candeia
Suspiram versos de amor!
Ai desfolhadas, lindas desfolhadas
Onde as raparigas vão todas lavadas!...
Saem de casa, preparam-se bem,
Porque os seus amores lá irão também!
As debulhas e os Mantarrões ou Carroncas
Passados dois ou três dias era a debulha. Mais uma noite de grande animação!... Juntavam-se vinte a trinta pessoas a debulhar o milho que os homens, munidos com um viro, faziam três ou quatro riscos na maçaroca e as mulheres e as raparigas, com um canucho, retiravam o resto do milho. Contavam-se anedotas, as últimas novidades da terra, cantavam-se cantigas e, de pouco em pouco, lá vinham com a garrafa da aguardente e jeropiga, regar as gargantas secas. Era uso e costume aparecerem os mantarrões, também chamados de carroncas: alguns rapazes metiam um tolde pela cabeça, que ia até aos pés; apertavam com um cinto na cintura, e na cara usavam umas meias ou umas rendas, tapando as mãos com umas luvas. Ajudavam na debulha e divertiam miúdos e graúdos com as suas diabruras. Falavam uns para os outros com a voz disfarçada, sendo muito difícil reconhecê-los. Sentavam-se sempre junto das raparigas ou em frente delas para melhor divertimento, havendo sempre boa harmonia e compreensão, fazendo o tempo voar!...
A debulha estava feita… comiam-se figos, maçãs, abrunhos, uvas e outras frutas da época, acompanhadas da boa jeropiga, aguardente ou anis. Muitas vezes havia baile ao toque do realejo até o tocador se cansar; outras vezes era à roda cantando cantigas diversas.
Era assim durante cerca de um mês!...
Geraldinhas e outras tropelias
E as geraldinhas?!... Eram um divertimento da rapaziada que a todos animava e dava um certo prazer. Consistia em ir a porta de casa duma rapariga por volta da meia-noite e, se já namorava, tentava-se dizer os defeitos e as virtudes do namorado, sendo os dela também realçados. Se não tinha namorado, arranjava-se um ao jeito dela ou por quem ela nutria uma certa simpatia e tentava-se dizer qual a melhor maneira de o convencer. O relatador era preciso ser manhoso, divertido, e inteligente para atingir os fins a que nos propunhamos e não magoar muito a sensibilidade das pessoas que ouviam os comentários. Por vezes usava-se um funil para a voz sair mais distorcida e não se conhecer a pessoa. Geralmente era aos sábados ou vésperas de dias Santos que a rapaziada se juntava mais para a diversão.
Não havia limite mas no mínimo eram sempre mais de dez. Pela surra da noite e quando tudo já dormia lá ia a malta em silêncio e com todo o jeitinho procurando o ponto estratégico, abrigado de qualquer inconveniente, sendo um destacado para segurar o puxador da porta, não fosse alguém sair. O pior era quando as casas tinham varandas ou janelas próximas da porta e algumas casas com duas saídas… O cuidado era redobrado para que tudo corresse bem. Alguns pais zangavam-se muito e atiravam aquilo que encontravam contra algum vulto que avistassem: pedras, cavacos, e até baldes de urina!...
Ora bem, era precisamente esses que eram mais massacrados e nos tinham sempre à perna. Tinha muito mais graça!... A começar era assim:
“- Ouve lá menina Maria!”
E o coro respondia:
“- Só tu!...”
“- Não me ponhas a chorar!”
E novamente o coro:
“- Só tu!...”
“- Olha que é o menino José! Só tu!... Com quem tu vais casar!...”
E o coro fazia-se ouvir novamente:
“- Só tu meu lindo bem! Só tu!..”
Então era a vez do relatador entrar em acção:
“- Olha que ele é bom rapaz! Já fez a vida militar, diz que sonha contigo todas as noites!... Claro que, como tu sabes, é um pouco arrogante, mas tu depressa o amansas!... Gosta muito da pinga, mas pelo menos não fuma!... Também não gosta muito de trabalhar… mas tu logo o metes na linha!”
E o relatador grita mais alto:
“- Estás a ouvir ou quê?!
E continua a desbobinar tudo o que sabe a respeito dele e dela… Começam a chover pedras junto de nós só que nunca acertam!...
Uma certa noite resolvemos ir aos figos de castelo de vide a umas figueiras que havia nas Fontes. Aí vimos um espantalho feito com paus e palha, com calças, camisa e até tinha um chapéu, servido para espantar a passarada dos alfroves. Diz logo um:
“- Aqui está um belo espantalho para ir pôr na rua do Sr. Fulano Tal… E de seguida cantamos a geraldinha à filha…”
Todos foram de acordo porque era à porta de uma pessoa que se zangava muito e sempre tinha muita pedra na varanda. Arranjou-se um ferro, espetou-se num local bem visível da varanda e amarrou-se o dito espantalho, que mais parecia uma pessoa. Começou a cantoria do costume e não tardou dois minutos q aparecer o homem em ceroulas, atirando pedras para todo o lado!... Quando viu o espantalho é que foi um forrobodó!...
“- Então seu malandro, ainda gozas comigo?”
E toca de atirar pedras, gritando:
“- Ai não foges?”
E até ferramentas de corte atirou!...
Nós já não podíamos com tanto rir!... Cada vez que ele gritava para o espantalho, era escangalhar com tanto riso!...
A rir e abraçados uns aos outros parecia que tínhamos ganho algo de maravilhoso… Foi uma daquelas partidas que nunca se esquecem.